Naquela noite, falei para o silêncio sobre as dores que me estilhaçavam por dentro, falei da vida, dos sorrisos que deixei passar, dos amores que deixei de amar, falei também sobre as melodias doces que deixei de ouvir, lembranças de arrependimentos. Coisas que vi deslisando por entre os meus dedos e nada fiz para impedir que elas partissem, coloquei o orgulho acima de tudo, me ilhei dentro do meu próprio ser, construí muralharas em torno de meu coração, fiz dos meus sentimentos estátuas, para que pudesse senti-los mas não pudesse demonstra-los. Tempos depois, só me restou arrependimento e memórias que poderia ter tido, mas não tive por medo de me entregar. Ah, doce engano esse de que podemos viver sem alguém, sempre achei que pudêssemos, que ingenuidade! Toda essa proeminência para no fim o silêncio me revelar que esse tempo todo que passei tentando me proteger, foi em vão, pois na verdade eu só estava criando ainda mais cicatrizes dentro de mim, todo esse tempo mentindo para si, fingindo ser feliz, para depois vir a descobrir que só posso ser feliz se eu me propiciar à ser.
Com ele descobri que de nada adianta tentar esconder os sentimentos que transcorrem dentro de mim, pois, de todo modo, chegará um momento em que não aguentarei abrigar tantas estátuas petrificadas e racharei.
Naquela noite nublada, sombria e tudo mais, ele olhou nos meus olhos e disse "Torna-te mais sensível, menina. Não se constrói castelos com corações de pedra ." e foi assim que decidi me libertar.
Egyle Hannah/ 16 de agosto de 2013.
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