O canto dos pássaros já não é mais suficiente para arrancar sorrisos de seu rosto, suas gargalhadas estão perdendo o som a cada dia que passa, seus risos perderam a espontaneidade que outrora tiveram, a saudade - esta que antes era sua bebida- adotou um gosto amargo e desce por sua garganta queimando mais que água-ardente. E tudo arde: seus pensamentos, seus sonhos, suas lembranças. Essa acidez repentina arrancou toda sua sobriedade. "Maldita água-ardente", ela grita. "Eu estou em meio a um caos", ela chora.
Alguns tentam -em vão- tomar-lhe essa garrafa que ela insiste em manter ao seu alcance, mas a saudade -que por si só já é uma droga perigosa- fica mais letal ainda quando se é combinada com a solidão. E as duas te botam pra baixo, te levam pra cama e te fazem dormir com o peso de toda a sua vida nas costas, para na manhã seguinte te servir um café da manhã acompanhado de ilusões.
Pela manhã, seus olhos procuram o Sol. Que Sol? Seu tempo permanece nublado: a neblina é mais forte que seu brilho. E ela abre o guarda-chuva para se proteger da tempestade, e usa até aquelas capas para que ao caminhar pelas calçadas, nenhum carro lhe dê um banho. Mas não serve. A força da tempestade furou o guarda-chuva e levou a velha capa. Agora só resta esperar um outro amanhecer.
E como uma folha seca que cai da árvore no outono, aquela menina perdera sua graça, e quando já estava ao chão, pude ouvir "creck". Acho que a vida andou pisando nela.
Egyle Hannah/ 28 de maio de 2014