quarta-feira, 28 de maio de 2014

Garçom! Traga-me uma garrafa de realidade, por favor.

Como um espelho partido pela força do impacto com o chão, parece que aquela menina não mais consegue se remontar. Como uma droga ilícita, a saudade se espalhou pelo seu corpo, pelo seu quarto, pela sua vida.
O canto dos pássaros já não é mais suficiente para arrancar sorrisos de seu rosto, suas gargalhadas estão perdendo o som a cada dia que passa, seus risos perderam a espontaneidade que outrora tiveram, a saudade - esta que antes era sua bebida- adotou um gosto amargo e desce por sua garganta queimando mais que água-ardente. E tudo arde: seus pensamentos, seus sonhos, suas lembranças. Essa acidez repentina arrancou toda sua sobriedade. "Maldita água-ardente", ela grita. "Eu estou em meio a um caos", ela chora.
Alguns tentam -em vão- tomar-lhe essa garrafa que ela insiste em manter ao seu alcance, mas a saudade -que por si só já é uma droga perigosa- fica mais letal ainda quando se é combinada com a solidão. E as duas te botam pra baixo, te levam pra cama e te fazem dormir com o peso de toda a sua vida nas costas, para na manhã seguinte te servir um café da manhã acompanhado de ilusões.
Pela manhã, seus olhos procuram o Sol. Que Sol? Seu tempo permanece nublado: a neblina é mais forte que seu brilho. E ela abre o guarda-chuva para se proteger da tempestade, e usa até aquelas capas para que ao caminhar pelas calçadas, nenhum carro lhe dê um banho. Mas não serve. A força da tempestade furou o guarda-chuva e levou a velha capa. Agora só resta esperar um outro amanhecer.
 E como uma folha seca que cai da árvore no outono, aquela menina perdera sua graça, e quando já estava ao chão, pude ouvir "creck". Acho que a vida andou pisando nela.

Egyle Hannah/ 28 de maio de 2014

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Passos falsos

 Quero viver em paz a minha solidão coreografada, onde os passos desta dança não me levam a lugar algum. Entre giros e tentativas de inovações continuo inerte ao movimento do meu ser, e nem sei se há um referencial para ser relacionado.  

 Como se estivesse presa em um labirinto, dou saltos para ver o outro lado do muro, tão altos e tão belos que são dignos de uma apresentação clássica de balé. Mas tudo isso é vão, quanto mais me elevo, mais me afundo. Pareço estar no meio de um espetáculo do lago dos cisnes que, como sempre, esqueceram de me avisar o porquê de eu estar aqui. Acho que precisarei me afogar para poder acordar e viver a realidade.


 Queria sentir a paz em meu peito dançando junto com minha solidão, mas diante de mim surge uma platéia repleta de expectativas. Eu não posso errar. Eu não posso chorar.

Egyle Hannah/ 23 de junho de 2014